A certificação da qualidade de gestão como objectivo de política pública
Event Title
3º Encontro Anual de Economia Política
Year (definitive publication)
2020
Language
Portuguese
Country
Portugal
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Abstract
Nesta comunicação apresentamos os resultados de uma investigação em curso sobre as tendências e os determinantes da certificação dos sistemas de gestão de qualidade das empresas portuguesas, bem como dos seus impactos no desempenho empresarial.
A qualidade da gestão das empresas é frequentemente apontada como um factor determinante da produtividade das economias. Por exemplo, com base nos resultados do World Management Survey, Bloom et al. (2014) concluem que cerca de ¼ da variação intra e internacional nos níveis de produtividade total de factores se devem a diferenças de práticas de gestão entre empresas. Brozeit et al. (2016) chegam a conclusões idênticas analisando os resultados de um inquérito às práticas organizacionais e de gestão das empresas alemãs.
Em Portugal, o INE lançou em 2016 o primeiro Inquérito às Práticas de Gestão, recolhendo informação qualitativa sobre vários domínios das práticas de gestão das empresas. Embora os dados disponíveis não permitam ainda analisar o impacto das práticas de gestão no desempenho empresarial no período sucessivo, os resultados do inquérito permitem constatar que as empresas com práticas de gestão mais estruturadas apresentaram no geral um melhor desempenho económico entre 2010-2016 (INE, 2016).
Existem várias formas através das quais a acção dos Estados pode contribuir para melhorar a qualidade de gestão das empresas. Uma delas consiste na criação de incentivos à certificação dos sistemas de gestão de qualidade das empresas segundo normas internacionais (tipo ISO 9000), seja através de apoios directos ou de estímulos indirectos (por exemplo, impondo a certificação como critério de acesso a apoios ou contratos públicos).
A certificação dos sistemas de gestão de qualidade é um processo através do qual as empresas procuram ver reconhecidas as suas práticas de qualidade segundo as normas internacionais estabelecidas, mas constitui também com frequência uma oportunidade para melhorar de forma permanente a gestão das organizações envolvidas.
Seja pelo seu efeito sinalizador ou pela aprendizagem organizacional que deles decorrem, é expectável que os processos de certificação dos sistemas de gestão qualidade das empresas resultem numa melhoria do seu desempenho económico. No entanto, os estudos empíricos disponíveis não reúnem evidência nesse sentido (e.g., Terziovski, Samson & Dow, 1997; Sun, 2000; Feng, Terziovski & Samson, 2007; Aba, Badar, & Hayden, 2016; Lindlbauer, Schreyögg & Winter, 2016).
O estudo que aqui apresentamos tira partido de uma base de dados inédita, que reúne informação contabilística das empresas, sobre a composição da força de trabalho e sobre as práticas de certificação entre 2006 e 2015.
Os dados revelam que o número de empresas em Portugal certificadas segundo a norma 9001 subiu de 3.598 em 2006 para 4.745 em 2013, recuando para 4.331 em 2015. As certificações concentram-se nas regiões da Grande Lisboa e do Grande Porto (onde se localizam cerca de 40% dessas empresas), sendo também de referir as regiões NUTS III do Baixo Vouga, do Ave e do Pinhal Litoral (cada uma com valores entre os 5% e os 8%). Ao nível sectorial, destacam-se as actividades do Comércio por grosso (12-13% ao longo do período), a Fabricação de produtos metálicos (7-9%) e as Actividades especializadas de construção (5-7%).
Recorrendo a métodos de regressão logística e de matching procurámos identificar os factores preditores do recurso à certificação e estimar os impactos da certificação no despenho empresarial. As características do sector de pertença, o nível de salário médio e a candidatura a apoios públicos são três dos principais preditores do recurso às certificações. No que respeita aos impactos estimados, os resultados apontam para existência de grande heterogeneidade, não permitindo concluir pela existência de efeitos generalizados das certificações dos sistemas de qualidade de gestão no desempenho empresarial.
Numa leitura céptica, estes resultados parecem sugerir que muitas empresas portuguesas recorrem à certificação como forma de aceder aos apoios públicos, não sendo no entanto evidente que tal opção tenha efeitos relevantes no seu desempenho (pelo menos no curto-prazo).
Acknowledgements
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Keywords
Português