Educação, desigualdades e desenvolvimento em tempos de ressentimento
Event Title
XI Congresso Português de Sociologia, Identidades ao rubro: diferenças, pertenças e populismos num mundo efervescente
Year (definitive publication)
2021
Language
Portuguese
Country
Portugal
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Abstract
Tenho dedicado os últimos anos ao estudo das desigualdades numa perspetiva que procura enfatizar as intersecções de um conjunto principal de dimensões estruturais de desigualdade, que na sua atuação contribuem de forma cumulativa para intensificar de forma complexa os desafios que se colocam nesta área problemática das desigualdades sociais. A boa notícia é que este é um objeto de estudo que continua a interpelar-nos nas suas complexidades, atravessado por processos de reconfiguração estrutural que ao mesmo tempo que replicam relações e experiências de desigualdade que têm vindo a ser assinaladas desde os clássicos da sociologia – abrem também novas frentes de desafio de análise e compreensão. Nestas dinâmicas e desafios, de facto, as interseções entre as desigualdades de classe social e as desigualdades de educação, nas suas características próprias e relações mútuas entre si e com outras dimensões ocupam um lugar central no olhar sociológico sobre as relações sociais. Vivemos numa sociedade que se descreve do conhecimento e da educação. Particularmente na Europa que aposta a sua presença no mundo tendo como uma das bandeiras a excelência técnica e científica dos europeus. Neste contexto, os recursos qualificacionais de que somos portadores determinam em boa medida as condições de participação e reconhecimento não apenas no mundo laboral, mas em outras esferas da vida social. A crise intensa que hoje vivenciamos, é talvez ainda mais impactante nos seus efeitos prolongados do que a crise financeira imediatamente anterior de que ainda nos estávamos a recompor.
Já na análise dos efeitos da crise anterior sobre as condições de vida e de participação de diferentes segmentos populacionais, percebemos claramente que os recursos qualificacionais têm uma influencia crescente na intensificação de desigualdades: numa economia que se transforma na boleia do digital e da automatização, é muito notório que não ter o perfil educacional ajustado aos requisitos da inovação e do conhecimento significa para vastos segmentos populacionais vivenciar uma vida adulta sem condições de dignidade e reconhecimento. Michael Sandel no seu último livro fala-nos a propósito na tirania do mérito.
A análise dos indicadores de educação [ligados por exemplo à redução do abandono escolar precoce; ao incremento significativo do peso relativo de jovens que concluem pelo menos o ensino secundário e sobretudo ao aumento exponencial que assistimos, desde logo no último ano, do número dos que acedem ao ensino superior, leva-nos a afirmar que a importância da educação como instrumento mediador das condições de inclusão social e construção de futuros alternativos é, hoje, um traço identitário que enquadra as práticas e orientações de boa parte dos jovens, também em Portugal.
Contudo nesta matéria os desafios são ainda significativos. A análise das características sociais dos estudantes confirma que se mantêm clivagens muito expressivas nas condições de sucesso académico e equidade, por exemplo, em função dos contextos sociais de origem dos jovens. Estes contextos, continuam a enformar quer o acesso quer as escolhas de formativas dos estudantes, por exemplo, entre universitário e politécnico ou áreas de estudo. Continuamos, portanto, a ter um sistema de ensino muito atravessado no seu interior por fortes clivagens, com repercussões expressivas nas possibilidades de reconversão do diploma numa integração social e profissional qualificante. Mais, nestes processos ligados às condições de progressão no sistema educativo e às “escolhas de formação, o contexto territorial onde esses jovens residem é também muito importante.
A comparação europeia, permite-nos ainda identificar outros aspetos de grande desafio: 1) Apesar da melhoria muito significativa dos perfis educativos dos portugueses, a verdade é que enquanto país temos uma posição muito contrastante nesta matéria com todos os restantes. Hoje a média de anos de escolaridade dos europeus entre 25 e 64 anos ronda os 13 anos; Portugal tem cerca de 10 anos: significa que na população economicamente ativa o grau de escolaridade prevalecente é ainda o ensino básico. 2) Nos últimos tempos o debate público tem realçado muito a perda de velocidade de Portugal face desde logo aos países do leste Europeu, que alegadamente nos estão a ultrapassar em termos de desenvolvimento. Ora, a este propósito, quero sublinhar que no Leste desde os anos 80 do século passado asseguraram a massificação da educação no nível secundário. Portanto quando ingressaram em bloco na União Europeia, nos primeiros anos do novo milénio, tinham já um perfil de educação muito melhorado na comparação com os países do sul, em particular Portugal. 3) A verdade é que no nosso pais a requalificação da população adulta através da criação de corredores específicos que procuram alargar o número dos que ingressam no sistema de ensino superior continua um desafio em aberto. A via de ingresso através dos M23, criada em 2006, continua muito aquém da sua capacidade, próxima do limite mínimo imposto às instituições de ensino superior pela lei. Perceber as resistências impostas pelo sistema e as dificuldades dos que procuram ultrapassar essas resistências é certamente um campo problemático ainda com muitas questões em aberto. 4) Apesar disto, a análise do coorte geracional que é frequentemente utilizado para observação de reconfigurações que se observam a este nível – a geração 30 a 34 anos - indicam que, em 2020, 43% deste coorte tinha estudos superiores. É um valor fantástico que confirma a convergência nacional face aos objetivos de escolarização que assumimos perante os parceiros europeus. 5) A análise destes números por género e por região (dois indicadores a que facilmente podemos aceder) sublinha, contudo, comportamentos e orientações muito diferenciados nesta matéria entre mulheres e homens (estes ainda prevalecentes nas orientações de integração precoce no trabalho, dissociada do projeto educativo). 6) Mais, como referi à pouco, Lisboa é a única NUT que atingiu a meta europeia 2020. As assimetrias entre regiões são abissais. Num pais tão pequeno e tão necessitado de massa crítica e capacidade de inovação é fundamental que estes processos sejam de facto mais abrangentes e atinjam todo o território, não apenas a capital. A observação destes comportamentos, tão assimétricos, por género e região sugere que provavelmente mesmo em termos de políticas educativas há ainda alguns ajustamentos importantes a fazer.
Novamente, a comparação europeia por exemplo através dos dados do Eurostudent – um inquérito que monitoriza as condições de vida dos estudantes, cujos últimos dados disponíveis reportam a 2017, dá-nos algumas pistas. Nestes dados percebemos que o peso relativo de jovens estudantes beneficiários de apoios diretos do estado para prosseguirem o seus estudos está em linha com o que sucede em outros países europeus; e apesar dos montantes desses apoios, entre nós, serem bastante reduzidos, a verdade é que têm servido efetivamente para segurar no Os dados do Eurostudent, confirmam ainda que um dos elementos de maior contraste entre os nossos estudantes e os de outros países, prende-se com o peso relativo, muito diminuto entre nós, dos que conciliam atividades de estudo com trabalho.
Porque é que isto acontece?
A resposta esta pergunta remete-nos para um dos grandes desafios que quanto a mim não tem tido suficiente atenção, e que se prende com a necessidade de pensarmos o sistema educativo através de uma abordagem holística que equaciona os processos de aquisição de aprendizagens tendo em conta, naturalmente, a orientação de educação para todos, e para todas as idades… numa perspetiva de educação ao longo da vida. Hoje o sistema de educação continua a ser muito marcado por traços de elitização, mesmo apesar do alargamento a segmentos que tradicionalmente não permaneceriam no sistema tantos anos, a verdade é desde logo no plano das atribuições culturais vastamente partilhadas há ainda um grande preconceito que tende a penalizar os que não seguem percursos lineares (e de dedicação exclusiva) ao projeto de educação formação.
O resultado disto é que no termo da sua formação inicial muitos dos nossos jovens diplomados saem do sistema sem ter tido qualquer experiência profissional ou mesmo de voluntariado, indo enfrentar um mercado competitivo que mesmo dando valor ao seu diploma, lhes pede mais no plano das experiências no mundo do trabalho. Esta situação é agravada num contexto como o nosso, onde o tecido económico tem tido uma evolução mais lenta do que a que assistimos no plano do sistema educativo (refletindo-se no número de diplomados que todos os anos acabam por procurar respostas em outros países, emigrando). Na minha perspetiva, para além de ser fundamental continuar a investir na educação geral dos jovens (e adultos), capacitando-os para a excelência criativa que lhes é exigida num mundo altamente competitivo e em constante mudança, é importante atuar ainda a dois níveis: repensar o modelo educativo permitindo e promovendo uma melhor conciliação entre trabalho e estudos – logo na formação pré-universitária; e é importante, também, “educar” o tecido económico, modernizando-o e capacitando-o verdadeiramente para os desafios colocados na atualidade.
Acknowledgements
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Keywords
desigualdades e educação,Comparação europeia,Desafios presentes,projetar o futuro
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