Capítulo de livro
A formação dos casais coabitantes: entre a tradição e a modernidade.
Filomena Santos (Santos, Filomena);
Título Livro
A Sociedade em Debate.
Ano
2016
Língua
Português
País
--
Mais Informação
--
Abstract/Resumo
O recuo do casamento como modelo dominante e único modo legítimo de entrar e viver a conjugalidade, o afrouxamento do controlo social sobre os comportamentos privados (Aboim, 2006; Wall, 2005), a liberalização dos costumes no que toca à sexualidade e a aproximação dos comportamentos das mulheres e dos homens (Marques, 2007, 2009; Pais, 2012), a valorização paritária da realização individual, no campo afectivo e profissional, entre outros aspectos, são tendências inscritas no processo mais vasto de individualização das relações sociais (Beck & Beck-Gernsheim, 1995) a que a sociedade portuguesa não é alheia. As narrativas dos nossos entrevistados (seis casos analisados) mostram que, em Portugal, para além da mudança social e de valores conotada com a modernidade, a qual fornece a moldura onde se inscrevem as biografias individuais dos coabitantes, o contexto familiar (a classe social, a origem rural dos coabitantes e das suas famílias, mesmo daqueles que vivem actualmente nas grandes cidades, e o ambiente de menor ou maior religiosidade dos familiares) continua a ser bastante determinante na decisão de casar ou coabitar (e na de continuar ou não a viver em coabitação), sobretudo quando se trata de jovens casais. O modo como se vive e encara a sexualidade fora do casamento surge como um factor importante no estabelecimento de linhas divisórias entre perfis de coabitação de matriz claramente modernista e perfis de coabitação mais permeáveis a traços tradicionalistas. Os discursos dos entrevistados agrupados na coabitação transitória sem filhos revelam alguma ambiguidade, independentemente do contexto de residência dos mesmos (rural ou urbano), sobretudo quando localizados nos sectores intermédios de escolaridade mediana e no elemento masculino do casal, já que oscilam, por um lado, entre valores modernistas, tais como, a enfâse colocada nos aspectos relacionais e emocionais do casal em detrimento dos aspectos institucionais, e por outro, em valores de recorte mais tradicionalista. Estes últimos revelam-se na persistência, embora esbatida, do controlo tradicional sobre a sexualidade feminina, na pressão social para casar, no estabelecimento de fronteiras menos flexíveis e representações diferenciadas acerca da coabitação e do casamento. Os dados desta pesquisa (que fazem parte de uma dissertação de doutoramento) apontam para uma imagem compósita da sociedade portuguesa, tanto ao nível simbólico como dos comportamentos, em que as referências se misturam e as dinâmicas tradicionais e modernas aparecem combinadas e justapostas.
Agradecimentos/Acknowledgements
--
Palavras-chave
Coabitação, Sexualidade, género, religião, rural e urbano, valores, sociedade portuguesa
  • Sociologia - Ciências Sociais