Classes sociais, trajetórias de vida e lugares de poder: uma abordagem etnográfica da representação política
Event Title
X Congresso Português de Sociologia, 2018
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2018
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Abstract
No discurso público ouvimos muitas vezes falar “dos deputados” ou “dos políticos” como se estes constituíssem um grupo social homogéneo e unificado, isto é, como se fossem um conjunto de pessoas marcadas por semelhantes trajetórias de vida, por idênticos lugares de poder e por análogos modos de exercício da representação política. Assim representados, os deputados tornam-se invisíveis: o discurso genérico e abstracto facilmente descai para o estereótipo e para a reprodução de lugares-comuns, contribuindo, desta forma, para a produção de um discurso social sobre o poder assente em representações parcelares e distorcidas. Em alternativa a este pano de fundo, esta comunicação apresenta um outro ponto de vista sobre a representação política, partindo da análise das histórias de vida concretas de deputados portugueses, do quotidiano em que se movem e dos sentidos que atribuem às suas ações. Tendo por base uma pesquisa etnográfica sobre a Assembleia da República, esta comunicação procura articular os conceitos de classes sociais, trajetórias de vida e lugares de poder, com o objetivo de compreender como é que o poder político se organiza, percepciona e reproduz numa instituição central do Estado. Se analisarmos as características sócio-demográficas dos deputados, facilmente percebemos que a representação política é exercida maioritariamente por homens, de meia idade, com altos níveis de qualificação e de profissões liberais. O que é que explica, então, a sub-representação de classes baixas e profissões menos qualificadas na representação política? Partindo dos discursos diretos de deputados, o meu argumento é o de que distintas origens e pertenças de classe potenciam ou inibem a possibilidade de acesso, permanência e adaptação às engrenagens do campo político e parlamentar. Engrenagens, essas, marcadas por lógicas hierárquicas, burocráticas e sócio-técnicas, que favorecem a capacidade de agênciamento de umas pessoas, em detrimento de outras. Assim, defendo que o campo político é um subconjunto relacional do espaço social, estruturado através de posições e disposições, a partir das quais os representantes disputam a posse do capital político, isto é, uma forma de capital simbólico, desigualmente distribuído, assente na crença, reconhecimento, autoridade e notoriedade. Capital, esse, que implica um “jogo duplo” entre a dependência dos aparelhos partidários e da influência fora do campo. Um jogo que estabelece um conjunto de fronteiras assentes em competências, linguagens, valores, retóricas, censuras e saberes adquiridos, que se adquirem no processo de formação de “habitus político”, isto é, um conjunto de disposições que orientam as percepções de poder, a ação política individual e, em última análise, a estruturação da representação política na sociedade portuguesa contemporânea.
Acknowledgements
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Keywords
Português