Corporificações de resistência contra-colonial e anti-capitalistas: Cruzando rodas, rochas e raçudas
Event Title
Performannce Studies International #30 Conference - Cruzo, Cruising, Crossroads
Year (definitive publication)
2025
Language
Portuguese
Country
Brazil
More Information
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Abstract
Tendo participado brevemente do movimento surrealista em Paris, o escritor suiço-cubano
Alejo Carpentier posteriormente apontou para suas limitações tanto conceituais quanto
geopolíticas. Se a principal limitação do surrealismo era um imaginário euro-centrado,
inescapável, mesmo quando lidando com coisas extra-europeias, talvez devido a seu
prolongado contato com praticas-pensamentos ou cruzos negro-cubanos, Carpentier
passou a propor que o real maravilhoso provinha da percepção intensa das riquezas
ignoradas em nichos da realidade cotidiana, e que essas experiências do real chegavam
a um estado-limite inseparável entre imaginário e real, materialidade e espiritualidade
[vulgo: cruzos]. A própria separação entre o ‘real'; e o ‘maravilhoso'; apontado por
Carpentier pode ser entendida como um efeito do capitalismo e seu sistema concomitante
de escravidão racializada e colonialismo (R. A. Judy em Sentient Flesh 2020).
Aqui, a 3 vozes, inspiradas em parte pelo mesmo conceito de “flesh" ou carne proposto
por Hortense Spillers que serviu como ponto de partida de Judy, propomos tratar de
práticas de convivência que resistem essa separação política-ontológica e recriam nichos
do mundo-em-relação, o real maravilhoso in locus… rodopiando em rodas de capoeira,
aprendendo com a cinética das rochas ou na ginga das boxeadoras raçudas.
1. Trato aqui de uma roda de capoeira angola realizada no Rio de Janeiro em
novembro de 2023, organizada por mulheres para comemorar como mestra uma
angoleira que vinha frequentando rodas nessa cidade durante décadas. Acontece
que essa pessoa - que introduziu, aos poucos e já com muita mandinga, uma
perspectiva feminista-negra nesse mundo até então hegemonicamente masculino -
sofre de uma perda aguda de memória pessoal. Mas o que tornou essa roda uma
encarnação singular do “real maravilhoso” foi como ela passou não só a participar
plenamente da roda mas a articular, exuísticamente, uma memória histórica-
ancestral-cosmopolítica afetivamente encorporada entre as pessoas ali presentes.
Dialogando com a performance como persistência (Lepecki, 2022) e como algo que
‘remains'/permanece (Schneider, 2015), apresento minha reflexão com imagens
que compõem um álbum de fotos desde as décadas anteriores quando a
fotografava mandingando em outras rodas - minha contribuição àquela roda tão
singular.
2. Corpo-algar é um debate ecosófico (Guattari 2009). A formação de algares é um
acidente morfológico das regiões cársicas. Pensar certos territórios geológicos em
erosão sustentável como processos de resposta aos fenómenos climáticos, exige
hoje um outro tensionamento em razão das alterações climáticas, e na região
algarvia (Portugal) que observei, da urbanização abusiva e turistificação massiva.
Mas como entendê-los não apenas como degenerativos, mas antes como
fenômenos de ressurgência (Tsing, 2019). Entender como as rochas se movem
numa ginga imprevisível que abre poços ou desmorona sobre as praias, escutando
suas cinéticas como resistências, é afinal reconhecer “o real maravilhoso” também
nestes corpos-algar, como potenciam os nossos. Imaginar novos modos de ocupar
as ruínas, de recuperar paisagens e habitar lugares desmantelados ou em
decomposição, é “aprender a ocupar até os espaços mais degradados da vida na
Terra” (2019:87).
3. Pensar corpas raçudas são sinapses analíticas feitas sobre os modos de vidas de
meninas negras boxeadoras para entender como práticas corporais encarnadas
podem gerar efeitos tipo manchas perturbadoras em noções de memória corporal,
ancestralidade e traumas raciais de modo a gerar ressonâncias amplificadoras
sobre, através e a partir do “real maravilhoso.” Baseio meu campo empírico na
observação dos efeitos desses engajamentos em contextos de intensificação de
tensões sociopolíticas e econômicas, onde as contradições das estruturas raciais
se sobressaem refletindo nas formas como essas meninas experienciam saberes
práticos. A inexistência de etnografias sobre mulheres negras no boxe, bem como
da atenção devida às análises raciais geradas por esses engajamentos corporais
conferem desafios teóricos e metodológicos a esta análise.
Acknowledgements
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Keywords
performance,encruzilhadas,real maravilhoso
Português