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Corporificações de resistência contra-colonial e anti-capitalistas: Cruzando rodas, rochas e raçudas
Paulo Raposo (Raposo, P.); Scott Head (Head, S.); Antônia Gabriela Pereira de Araújo (Araújo, Antônia);
Event Title
Performannce Studies International #30 Conference - Cruzo, Cruising, Crossroads
Year (definitive publication)
2025
Language
Portuguese
Country
Brazil
More Information
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Abstract
Tendo participado brevemente do movimento surrealista em Paris, o escritor suiço-cubano Alejo Carpentier posteriormente apontou para suas limitações tanto conceituais quanto geopolíticas. Se a principal limitação do surrealismo era um imaginário euro-centrado, inescapável, mesmo quando lidando com coisas extra-europeias, talvez devido a seu prolongado contato com praticas-pensamentos ou cruzos negro-cubanos, Carpentier passou a propor que o real maravilhoso provinha da percepção intensa das riquezas ignoradas em nichos da realidade cotidiana, e que essas experiências do real chegavam a um estado-limite inseparável entre imaginário e real, materialidade e espiritualidade [vulgo: cruzos]. A própria separação entre o ‘real'; e o ‘maravilhoso'; apontado por Carpentier pode ser entendida como um efeito do capitalismo e seu sistema concomitante de escravidão racializada e colonialismo (R. A. Judy em Sentient Flesh 2020). Aqui, a 3 vozes, inspiradas em parte pelo mesmo conceito de “flesh" ou carne proposto por Hortense Spillers que serviu como ponto de partida de Judy, propomos tratar de práticas de convivência que resistem essa separação política-ontológica e recriam nichos do mundo-em-relação, o real maravilhoso in locus… rodopiando em rodas de capoeira, aprendendo com a cinética das rochas ou na ginga das boxeadoras raçudas. 1. Trato aqui de uma roda de capoeira angola realizada no Rio de Janeiro em novembro de 2023, organizada por mulheres para comemorar como mestra uma angoleira que vinha frequentando rodas nessa cidade durante décadas. Acontece que essa pessoa - que introduziu, aos poucos e já com muita mandinga, uma perspectiva feminista-negra nesse mundo até então hegemonicamente masculino - sofre de uma perda aguda de memória pessoal. Mas o que tornou essa roda uma encarnação singular do “real maravilhoso” foi como ela passou não só a participar plenamente da roda mas a articular, exuísticamente, uma memória histórica- ancestral-cosmopolítica afetivamente encorporada entre as pessoas ali presentes. Dialogando com a performance como persistência (Lepecki, 2022) e como algo que ‘remains'/permanece (Schneider, 2015), apresento minha reflexão com imagens que compõem um álbum de fotos desde as décadas anteriores quando a fotografava mandingando em outras rodas - minha contribuição àquela roda tão singular. 2. Corpo-algar é um debate ecosófico (Guattari 2009). A formação de algares é um acidente morfológico das regiões cársicas. Pensar certos territórios geológicos em erosão sustentável como processos de resposta aos fenómenos climáticos, exige hoje um outro tensionamento em razão das alterações climáticas, e na região algarvia (Portugal) que observei, da urbanização abusiva e turistificação massiva. Mas como entendê-los não apenas como degenerativos, mas antes como fenômenos de ressurgência (Tsing, 2019). Entender como as rochas se movem numa ginga imprevisível que abre poços ou desmorona sobre as praias, escutando suas cinéticas como resistências, é afinal reconhecer “o real maravilhoso” também nestes corpos-algar, como potenciam os nossos. Imaginar novos modos de ocupar as ruínas, de recuperar paisagens e habitar lugares desmantelados ou em decomposição, é “aprender a ocupar até os espaços mais degradados da vida na Terra” (2019:87). 3. Pensar corpas raçudas são sinapses analíticas feitas sobre os modos de vidas de meninas negras boxeadoras para entender como práticas corporais encarnadas podem gerar efeitos tipo manchas perturbadoras em noções de memória corporal, ancestralidade e traumas raciais de modo a gerar ressonâncias amplificadoras sobre, através e a partir do “real maravilhoso.” Baseio meu campo empírico na observação dos efeitos desses engajamentos em contextos de intensificação de tensões sociopolíticas e econômicas, onde as contradições das estruturas raciais se sobressaem refletindo nas formas como essas meninas experienciam saberes práticos. A inexistência de etnografias sobre mulheres negras no boxe, bem como da atenção devida às análises raciais geradas por esses engajamentos corporais conferem desafios teóricos e metodológicos a esta análise.
Acknowledgements
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Keywords
performance,encruzilhadas,real maravilhoso