Comunicação em evento científico
Vendendo a periferia. A experiência da street art num bairro multicultural
Otávio Raposo (Raposo, Otávio);
Título Evento
XI Congresso Português de Sociologia.
Ano (publicação definitiva)
2021
Língua
Português
País
Portugal
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Abstract/Resumo
Antes descrita como poluição visual, o graffiti transformou-se numa mercadoria estética e turística a partir do novo rótulo – street art –, um processo de enobrecimento em que participaram vários agentes sociais: instituições governamentais, media, academia, urbanistas, empreendedores culturais. Os efeitos de “artificação” foram realçados por alguns pesquisadores ao identificarem as consequências da commodification em que a street art passou a estar imersa (Austin 2010; Shapiro e Heinich, 2013; Bengsten 2014; Campos et. al 2020). Apoiada por instituições públicas e privadas, esta expressão artística tornou-se “parceira” de políticas moldadas pelo paradigma de creative city, cujos propósitos visam a valorização territorial, renovação urbana e turistificação. Esta comunicação irá abordar os processos citados, privilegiando as lógicas de controlo social e subalternização quando executadas por projetos estatais que utilizam esta expressão artística enquanto instrumento de inclusão social de populações marginalizadas. O meu argumento é que a dinamização da street art em territórios precarizados e habitados por populações racializadas ou de origem imigrante – bairros sociais, favelas, guetos – revela-se um ótimo recurso de place marketing, ao conjugar uma estética radical com uma experiência multicultural comercializada enquanto visita guiada autêntica e não tradicional. Para além de tornar turísticas localidades até então representadas mediaticamente pelo viés exclusivo da anomia e do crime, as políticas públicas de street art nesses territórios atuam também como um meio de gestão das desigualdades sociais pelos poderes públicos, apaziguando conflitos urbanos e gerindo a pobreza. Este é o caso da Galeria de Arte Pública da Quinta do Mocho, um bairro de habitação social localizado na cidade de Loures, periferia de Lisboa, que se transformou num dos spots de referência da arte urbana na Europa. Transformada em política pública pela autarquia em 2014, a street art converteu-se numa commodity valiosa para os poderes públicos intervirem na requalificação estética deste território, contrariando o estigma a que bairro foi relegado durante anos. Este projeto, contudo, segue uma lógica top-down que ignora tanto a opinião dos moradores em relação às intervenções realizadas quanto as suas reivindicações por reais melhorias nas condições de habitabilidade. Os murais artísticos da Galeria de Arte Pública da Quinta do Mocho ornamentariam esse processo de exclusão, transformando o que era antes perigoso (e étnico) num novo destino multicultural e moralmente controlado da cidade turística.
Agradecimentos/Acknowledgements
Contract funded by FCT (DL57/2016, Lei 57/2017)
Palavras-chave
Street art,periferia,turismo,multiculturalidade