Abstract
O presente artigo explora as dinâmicas de participação juvenil a partir de uma investigação etnográfica realizada no projeto "Casa”, localizado em Campanhã, na cidade do Porto e financiado pelo Programa Escolhas1. O estudo, conduzido entre novembro de 2023 e junho de 2024, no âmbito do projeto PERICREATIVITY2, teve como objetivo compreender como os jovens experienciam e representam a sua participação e identificar os desafios inerentes ao processo. Metodologicamente, a investigação assentou numa estratégia etnográfica, recorrendo à observação participante, ao registo sistemático em diário de campo e a entrevistas semiestruturadas com jovens e equipa técnica. Alguns dos principais resultados evidenciam uma dissociação entre a retórica institucional de empoderamento e de participação e as representações sociais dos jovens, para quem se traduz em termos mais práticos ("estar presente", "ajudar"). A análise das assembleias semanais de jovens revela as potencialidades da apropriação criativa de referências consumidas diariamente pelos jovens para fomentar o seu envolvimento, mas demonstra que esta se processa numa "arena circunscrita". A agência exercida acaba por ter uma "baixa consequência", o que gera a perceção de uma "simulação de poder" (Arnstein, 1969), limitando o potencial emancipatório. Apesar de o projeto “Casa” atuar como um amortecedor das desigualdades sociais, peca pela ausência de ligação a esferas de poder mais amplas, perpetuando a sensação de invisibilidade política dos jovens, tornando a intervenção insuficiente para gerar transformação estrutural. Propõe-se, assim, o repensar dos modelos de participação articulados às escalas micro e macro, transformando as sugestões internas dos jovens em ações de cidadania ativa no espaço público.