Comunicação em evento científico
Tempo, confiança, conflito: Trabalhar numa organização start-up.
João Vasco Coelho (Coelho, J. V.);
Título Actas Evento
2º Encontro Anual da Associação Portuguesa de Economia Política
Ano
2019
Língua
Português
País
Portugal
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Abstract/Resumo
O universo start-up tem vindo a ser apresentado e representado, em termos públicos, mediáticos e políticos, como uma possível nova via para o crescimento da economia nacional. A referência a uma organização start-up, define, no presente, uma amenidade, uma platitude, correlativa da ratificação laudatória dos seus méritos como factos consumados, indiscutíveis. Não obstante a posição periférica que tende a caracterizar (e a apresentar) Portugal no quadro europeu, diferentes fatores têm vindo a contribuir para que o país se afirme, em proporção com a dimensão da sua economia e valor do PIB nacional, como uma referência no contexto europeu de start-ups - um modelo a seguir, uma “nação start-up”. O (baixo) custo de vida, a qualidade de vida, os (baixos) custos do trabalho, a qualificação dos trabalhadores (em particular, no domínio das engenharias e das tecnologias de comunicação e informação), a abertura intercultural, a segurança, a estabilidade institucional, são fatores tipicamente valorizados (e celebrados), ao nível das práticas discursivas institucionais, como facilitadores da angariação de investimento estrangeiro e da localização de organizações start-up e de profissionais em território nacional. Visões alternativas deste fenómeno são pouco frequentes ou pouco visíveis. Atendendo à evidência empírica existente e tendo em conta a atenção e o investimento público que a recente eclosão do fenómeno start-up tem suscitado em Portugal, considera-se relevante procurar compreender esta realidade socioeconómica nas suas diferentes dimensões constitutivas. Em particular, importa complementar as perspectivas macro e meso prevalecentes nos estudos que têm vindo a ser realizados em Portugal acerca das organizações start-up, centrados na análise do impacto das agendas de política pública e da estratégia industrial de agentes privados, ou no papel de diferentes agentes económicos na configuração de clusters locais, regionais, nacionais e internacionais de fomento de inovação. A presente comunicação apresenta os resultados de uma pesquisa longitudinal concretizada no decurso do ano de 2015, numa organização start-up, onde um dado empírico foi adotado como horizonte de problematização, em termos analíticos: o elevado grau de incerteza da continuidade de existência de uma organização start-up. Adotou-se, neste sentido, como hipótese de trabalho, a possibilidade de uma organização start-up constituir um contexto social de produção de situações de trabalho particulares, uma organização de natureza temporária, produtora de especificidades normativas em termos organizacionais e socioeconómicos. Partindo da análise de informação empírica recolhida por via de entrevistas a gestores e trabalhadores da organização start-up considerada, da observação direta das práticas de gestão e organização produtiva, e de análise de fontes documentais, equacionam-se as implicações da natureza putativamente temporária de uma organização start-up. Sugere-se que as situações concretas de trabalho numa organização start-up são potencialmente enformadas por atributos socioculturais particulares, decorrentes de uma economia e de um uso particular do tempo, e das implicações deste uso na constituição de racionalidades de organização e de relação matizadas pelos efeitos de uma temporalidade finita. Dois marcadores empíricos ilustram, em particular, estes efeitos: o sentido de confiança e de reciprocidade como atributos presumidos, em termos súbitos ou instantâneos, num contexto caracterizado pela impermanência e pela rarefação normativa; a secundarização do conflito, da existência e dos efeitos do conflito.
Palavras-chave
Start-up,Economia da Inovação,Empreendedorismo,Organização temporária
  • Economia e gestão - Ciências Sociais
  • Sociologia - Ciências Sociais